segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Gato e o Escuro

Hoje gostaria de indicar uma fábula que eu adoro e recebeu em 2009, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o selo de altamente recomendável.



O “O Gato e o Escuro”, de Mia Couto, conta a história de Pintalgato um gato que vive sendo alertado pela mãe para que não ultrapasse a fronteira do dia. Mas ele, louco para descobrir o que se esconde sob a sombra da noite, decide se aventurar e acaba tendo um encontro inusitado com o escuro. Quando volta para a luz do dia, descobre que seu pêlo, antes amarelo com pintinhas, está preto como a noite, e fica apavorado. Com ajuda da mãe, porém, consegue perceber que o medo do escuro, na verdade, é o medo das 'ideias escuras que temos sobre o escuro'. Com uma prosa envolvente e cheia de pequenas surpresas poéticas, Mia Couto elabora uma fábula sobre as aflições e o encantamento com o desconhecido.


A temática principal da narração gira à volta do medo do escuro ou do desconhecido: daquilo que está para lá da linha do horizonte ou do muro da nossa casa, até onde a vista dos nossos pais nos consegue alcançar ou até onde chega o braço protetor da nossa infância… É uma pequena estória que fala também dos riscos da desobediência, o que entra em conflito com a crescente necessidade de autonomia que muitas vezes as crianças sentem.


O autor utiliza neologismos que dão ritmo para a história, e as construções frásicas lembram a voz de um velho feiticeiro tribal que encanta os menores, como no exemplo: “Faz de conta o pôr-do-sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.”


A fuga à norma culta utilizada como um recurso estilístico, veste o personagem narrador e da tom poético a obra, reforçado pelas imagens transportadas imediatamente para o imaginário visual do leitor. Um gato a pisar a linha do horizonte, quando o sol desaparece é uma cena visual descrita numa frase que perderia muito do seu encanto se fosse enquadrada na frieza da norma.


Mia Couto diz no prefacio que essa é uma história contra o medo, “Não sei se alguém pode fazer livros “para” crianças. Na verdade, ninguém se apresenta como fazedor de livros para adultos.”

Acredito que é uma ótima oportunidade das crianças terem um primeiro contato com as obras do escritor moçambicano que dispensa apresentações por já ter recebido vários prêmios literários e agora inova seu repertorio com essa produção destinada ao público infantil, que também ensina muitas coisas aos adultos porque não é o escuro que é horripilante:


Somos nós que enchemos o escuro com os nossos medos!”.

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