terça-feira, 18 de agosto de 2009

Coisas que eu não gosto

Perder o ônibus quando estou atrasada, estourar o cartão de crédito, perder a paciência, ser arrogante, sentir frio, sentir fome e pagar conta de telefone.


Não gosto de regras de gramática, problemas de matemática, críticas destrutivas, roupas de marca, estar acima do peso, dormir tarde e acordar cedo.


Não gosto de olhar o rio sujo da ponte Eusébio Matoso, advogado que sabe tudo, babá que pensa que é a mãe da criança, gente que fala correto e não vive o que diz.


Não gosto de refletir se é certo falar: “através de” ou “por meio de”; de falar “a nível de”, “em âmbito de”.

Não gosto de viver a serviço do que a gramática permite “apesar de”, “embora”, “mas”, “contudo”, “no entanto”, “entretanto”, “todavia”, “porém”...


Será que importa que o “MAS não vai BEM depois de um BOM”?

A pontuação de “este” e “aquele” não leva em conta, que as hipóteses dos gramáticos não estão, “de acordo com”, o “contraponto”, do “contradizer” de toda a minha realidade.


Os comandos “dê sua opinião”, “o que você acha”, não são levados em consideração quando “levanto indícios” de que a utilização dos artigos, as referências do Houaiss, do Aurélio, do latim, não fazem sentido na relação das coisas que eu não gosto.


O “normativismo” não é necessário para se fazer entender. Quando nos tornamos mais humanos “as ambigüidades” se desfazem naturalmente pela proximidade dos corações.


Não gosto de analisar frases, sentenças, orações, verbos diretos e ignoro os indiretos. Prefiro pensar, sentir, me sensibilizar, refletir com o conteúdo e sentido de todas as coisas. Portanto sobre as frases:


“Muitas crianças poderiam tornar-se profissionais competentes. A essas crianças não se dá nenhuma oportunidade de estudar”; ou


“Muitas crianças (vírgula) a quem não se dá oportunidade de estudar (vírgula) poderiam tornar-se profissionais competentes (ponto final)”


Penso que a análise correta é que as vírgulas não resolveram o problema das crianças que estão sem estudar.


Sobre a frase: “O rapaz de que gosto foi embora para a Europa”, não pode ser analisada por gramáticos, porque esses nem mesmo sabem o significado da palavra saudade. Com certeza os gramáticos que tudo sabem, e que sempre estão de acordo com o normativismo diriam: “Saudade é lembrança melancólica e suave. È sentir falta de algo que já se teve um dia”.

Mas a vida me ensinou que é possível sentir falta e saudades das coisas que eu nunca tive...


São Paulo, 12 de agosto de 2009.

* Esse texto é para a estrela que brilha no pedacinho do meu céu.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto! Muito criativo e verdadeiro.

    Um abraço
    André Luiz e Silva

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