terça-feira, 1 de setembro de 2009

O Asceta e a Lebre (conto indiano)


Um asceta de mui antigamente vivia da maneira mais miserável possível: habitava uma caverna. Ele se vestia com cascas de árvores, bebia água da fonte e só comia frutos e raízes. Apenas uma lebre costumava lhe fazer companhia. Era uma lebre muito especial que sabia falar com os homens e gostava muito de conversar com o asceta. Foi assim que ela adquiriu muita ciência e sabedoria.

Mudou a estação e chegou um ano muito quente. As fontes secaram e as árvores ficaram sem frutos nem flores. O asceta ficou sem ter o que comer e o que beber, e um dia, de raiva, desgosto da vida que ia levando, ele jogou longe seu casaco de casca de árvore.

- O que é isso? – Perguntou a lebre.
- Isso mesmo que você viu. Não quero mais vestir esse casão! – respondeu o asceta.
- Não acredito – disse a lebre. – Vai deixar a caverna?
- Vou. Quero morar entre os homens. Lá pelo menos poderei receber esmolas e matar a fome. E a esmola que me derem será melhor do que as frutas e as raízes.



A lebre se encheu de tristeza. O asceta era como um pai para ela, que então implorou-lhe:
- Não vá embora, meu amigo. Não me deixe sozinha. Você não imagina o quanto se perde morando na cidade. Só a vida na floresta é boa.

O asceta não parecia escutar os rogos da lebre. Estava decidido.
- Se queres deixar o retiro destas montanhas – voltou ao assunto à lebre -, pois seja feita a sua vontade. Mas me dá pelo menos a graça de permanecer mais um dia aqui, só um dia. Fica só hoje, e amanhã pode fazer o que quiser.

O asceta concordou, depois de ter raciocinado assim: “As lebres têm uma habilidade muito grande para conseguir alimento, e ás vezes têm as suas reservas. Com certeza amanhã ela me trará alguma comida”.

E assim a lebre partiu satisfeita da vida.
O asceta era devoto do Deus Agni e tinha sempre o fogo aceso na sua caverna. “Como não tenho o que comer, vou me esquentar no fogo enquanto a lebre não vem” – pensou ele, entrando na caverna.

No alvorecer do dia seguinte, lá estava a lebre de volta. E sem trazer nada para comer, para grande decepção do asceta, que estampou no rosto uma careta de desgosto. A lebre saudou-o e disse:
- Nós, os animais, não temos muita compreensão das coisas. Perdoa-me, ó grande asceta, cometi alguma falta.
E ao dizer isto, deu um pulo em direção à fogueira.
- Que loucura é essa? – exclamou o santo homem, precipitou-se para o fogo, retirando a lebre das chamas.

Triste, a lebre tentou explicar seu gesto:
- Não quero que te faltes com o teu dever; não quero que deixes este retiro. Não há nada com que te possa alimentar, por isso quis consagrar meu corpo ao fogo para que te possas alimentar.

O asceta ficou comovido com tanta abnegação. Respondeu-lhe:
- Não irei mais para a cidade, e mesmo que tenha de morrer de fome, permanecerei aqui.

A lebre muito satisfeita, olhou para o céu e fez uma prece:
- Indra, vivi sempre solitária. Dignai-vos a me ouvir e permiti que chova sobre nós.
Indra ouviu a prece da lebre e uma grande chuva começou a cair. Logo, logo, o asceta e sua amiga lebre tiveram o alimento que desejavam.

*** Trabalhei a leitura compartilhada dessa história com alunos do Fundamental I. Esse conto indiano pertence a cultura budista e foi retirado do livro Os grandes contos populares do mundo, organização de Flávio Moreira da Costa, editora Ediouro.

:) Mafuane

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