sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Amor e Pedagogia



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Tive o prazer de escutar esse texto quando encontrei a Sara Pain em 2008.
Sou apaixonada por essa exposição sobre o papel da educação, tanto realizei essa leitura no Memorial da América Latina na minha formatura como uma singela homenagens aos meus mestres.
Hoje nessa data tão especial compartilho com todos os educadores algo que marcou minha vida: Amor e Pedagogia
O que é educar?

Fazer do outro nosso semelhante. Ensinar é exercer o desejo de reprodução na sua forma mais radical, pois, carente de inscrições instintivas, o ser humano só chega a ser ele próprio através da aprendizagem.

Para fazer do outro um semelhante, é necessário antes amar a si próprio. Pois o direito a transmitir vem da valorização por aquilo que somos. Mas se esse amor por nós mesmo for pessoal, egocêntrico, narcisista, a transmissão aliena o sujeito em formação, o transforma numa imagem.

O amor que permite educar é o amor pelo que se é, mas somente na medida em que cada um de nós é depositário de uma cultura comum a um grupo e, mais além ainda dessa cultura particular, das conquistas próprias do ser humano em geral.

Não se pode ensinar verdadeiramente a matemática ou a ler e escrever, sem sentir profundamente a grandeza sublime do pensamento inteligente, capaz de ter elaborado tais maravilhas. Ensinar a contar e a escrever é muito bom, mas transmitir ao mesmo tempo o valor humano dessas conquistas que necessitam de milhões de anos de evolução para se concretizar é formar um sujeito que, não sendo ele mesmo um gigante, está sentado nas costas de um gigante e vê cada vez mais longe.

A generosidade da doação supõe paralelamente o amor pelo outro e a crença em sua possibilidade de integrar esse dom. Não se trata aqui, então, de um amor caridoso, porque o ensinar não é um “favor” que fazemos a aquele que não sabe, é um amor de reciprocidade no qual receber justifica plenamente o prazer de oferecer.

Para ensinar é preciso amar, em primeiro lugar o ser humano e todas suas capacidades de produzir cultura, amar o aprendiz como depositário da continuidade e da transformação dessa cultura e amar a si mesmo como capaz de aprender e de seguir aprendendo para assegurar essa transmissão. Amar é uma condição indispensável para que esse ato sublime da transmissão do conhecimento se realize apaixonadamente na militância pedagógica.

Esqueci de um amor muito importante para poder ensinar: o amor que a comunidade deve demonstrar ao professor e que se traduz no reconhecimento das instituições por seu trabalho. Além dele é necessário o amor que se traduz pela ajuda dos colegas, pelo agradecimento dos pais e pelo carinho dos alunos.

Amor e Pedagogia, texto de Sara Pain enviado aos participantes do III Fórum Social pelas Aprendizagens, promovido pelo GEEMPA – Grupo de estudos sobre Educação, metodologia de pesquisa e ação – em 11 de dezembro de 2007, na cidade de Porto Alegre.

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