quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Visita à Roça Sundy



Quando chegamos à ilha do Príncipe, fomos muito bem recebidas por Teresa Cruz (esquerda da foto) e Ilda Varela (direita da foto) , representantes da Secretaria da Educação e logo nos acomodamos no hotel do Sr Juju. Almoçamos e em seguida partimos para conhecer a primeira comunidade, na roça Sundy.

Estávamos muito felizes por saber que  nesta ilha estava acontecendo a primeira missão cultural brasileira e nos orgulhamos por representar o Brasil em terras tão longínquas.                                                                                      

De Jipe, com o motorista Sr Albino (no centro da foto acima), desbravamos estradas cheias de emoção e lama, e a mata nativa ao redor. Um fato importante é que no ano de 2012 a ilha do Príncipe se tornou Reserva da Biosfera pela UNESCO.

Após uns 40 minutos de estrada de terra, chegamos à Roça Sundy e logo a comunidade veio ao nosso encontro, num espaço em que pudemos nos proteger da chuva. Lá Em São Tomé e Príncipe costuma chover bastante e o clima é dividido entre tempo de gravana (seca), -de junho a agosto- e chuvas, no restante dos meses. Como nossa viagem foi em outubro, a chuva foi uma constante em nosso dia-a-dia. Este fato, no entanto, em nenhum momento foi empecilho para descobrirmos e nos encantarmos com as surpresas que se colocavam diante de nossos olhos!

Muitas crianças surgiram e se sentaram para ouvir o motivo pelo qual estávamos lá. Algo impressionante era ver o respeito que as crianças tinham por nós e a educação que mostravam para escutar os adultos. Contamos a história "O Bode e a Onça", descobrimos que eles não conheciam onças, mas o bode, pelo contrário, é um animal muito presente na região. E para surpresa de todos, lá também não existem elefantes e girafas, como costumamos ouvir que ‘na África tem’... Mas isso será um capítulo à parte, sobre as muitas Áfricas do continente africano!

Após contarmos nossa história, foi a vez de escutarmos as histórias que costumam compartilhar entre si. E foi assim que pudemos conhecer uma pessoa encantadora chamada Sr. Necas, um contador nato, que não precisa se vestir com roupas especiais e nem usar qualquer artefato senão seu próprio dom da palavra. E ouvimos uma história muito contada entre o povo santomense, da D. Tartaruga e seu marido. No decorrer do tempo- e conforme nosso fôlego permitir!-, disponibilizaremos neste blog algumas histórias e músicas que tivemos contato. Em seguida, foi a vez do professor Pedro incentivar as crianças a ensinar-nos suas cantigas. Qual não foi nossa surpresa quando ouvimos a música da Cobra, cantada na versão do pé de Cacau (por este ser um fruto muito farto na região!):

“A cobra não tem pé
A cobra não tem mão
Como é que a cobra sobe
No pezinho de Cacau?
Estica! Encolhe! O seu corpo é todo mole!”



E nós que achávamos que muitas das cantigas que apresentávamos eram originais brasileiras... Muito aprendemos sobre a influência dos portugueses em nossas vidas e sobre as diversas influências entre os povos e as ricas trocas culturais! Assim como as músicas, muitas histórias agregam características dos países onde são contadas e tornam-se ‘originais’ daquele lugar, mas a verdade é que dificilmente saberemos ao certo sua verdadeira origem...

Ao finalizarmos o nosso encontro e antes de irmos embora para a próxima comunidade, visitamos uma Casa Grande, onde os colonizadores portugueses moravam e administravam as roças.

CURIOSIDADE... 

O sistema de roças, que deu aos gerentes das plantações um alto grau de autoridade, conduziu a abusos contra os trabalhadores rurais africanos. Apesar de Portugal oficialmente abolir a escravidão em 1876, a prática do trabalho forçado pago continuou. Os trabalhadores contratados (angolanos, caboverdianos e de outros lugares da África), foram submetidos a trabalho forçado e condições de trabalho desumanas.

Em São Tomé,  a todo momento nos deparamos com os antigos casarões dos senhores (em grande  parte abandonados ou ocupados por várias famílias) e as senzalas ainda servem de moradia para os trabalhadores rurais.   

No Brasil também tivemos escravidão e várias atrocidades foram cometidas pelos colonizadores contra negros, índios e seus descendentes. Mas nós brasileiras, paulistanas, acostumadas a vivenciar a realidade das grandes metrópoles, muitas vezes nos distanciamos desse passado em meio ao desenvolvimento urbano e transformações para o “progresso”. Na capital paulista, não esbarramos em senzalas, e os antigos casarões foram transformados em museus e prédios públicos.  

Porém se tivermos um olhar mais atento e sensível, enxergaremos a essência dos antigos casarões nos condomínios com cercas elétricas e as antigas senzalas nas favelas.  Bem, essa é a nossa reflexão, opinião pessoal diante do que vivenciamos, mas se isso é “a verdade”, já é uma outra história.... 

Nenhum comentário:

Postar um comentário